Letters to my Children

That day when you had your first professional hair cut.

Cincinnati, 12 de abril de 2018.

Primeiro corte de cabelo.

Eu tentei, filho, eu juro que tentei. Você sabe que mamãe não é apegada com coisas materiais. Mas eu confesso que estava bem apegada com o fato de que seu cabelo é lindo. Seu cabelo foi crescendo depois que você completou 1 ano, e eu nem sequer cogitei a idéia de te levar pra cortar num salão profissional. E o medo que eu tinha que eles cortassem muito curto?

E a saudade que eu ia ter de te ver correndo pela sala e balançando seus cabelos, satisfeito – e orgulhoso- com a sensação que você mostrava sentir quando ele batia no seu rostinho? Você gosta de tocar nas pontas do seu cabelo e várias vezes te peguei sorrindo ao fazer isso. Parabéns filho, ter auto estima e gostar de si é uma benção e algo que todos deveriam já nascer sabendo. E você é mestre nisso.

Então, por isso, eu tenho enrolado ao máximo te levar num salão profissional. Por quase 1 ano. Quando eu percebia que a franja estava incomodando, e que o comprimento estava cobrindo seu pescoço, mamãe pegava a tesoura com pontas redondas do Mario e do Bear, te colocava na frente da televisão vendo Super Simple Songs, e cortava bem pouquinho. Mas você não deixava. Não tinha desenho, comida, música ou brinquedo que te distraía. Você sabia que eu ia cortar seu cabelo, e você não deixava.

Nem com aquela música da roda do ônibus que gira gira e gira. Nem chocolate. Nem vinho tinto comprado em Florence. Brincadeira filho, mamãe não te deu vinho.

Nada disso te tirava a atenção de quem estava se preparando pra defender seu bem maior. O fios de ouro que a vida te deu. No caso, eu, que fique bem claro, que te dei geneticamente essa cor, esses fios abundantes que cobrem sua cabecinha linda. E se algum dia seu pai te disser que foi ele, olhe as minhas fotos de infância e depois olhe as do seu pai e você vai ver que foi mamãe quem te deu esses cabelos que te pertencem.

Sim, eu sei, os cabelos te pertencem e por isso que me sentia tão culpada cada vez que eu cortava, ou mesmo quando eu apenas aparava as pontas, com a promessa de “ah, vai crescer logo”.

Passada á tentativa frustada de cortar em frente á televisão, eu passei a tentar me aprimorar no corte num nível mais avançado: dentro da água. Tentei na banheira, entrando com você e tentando te distrair com barquinhos e canequinhas. Não funcionou. Tentei no chuveiro, achando que seria mais rápido, já que você guarda dentro de si um medo do chuveiro, como se este fosse primo de primeiro grau das Cataratas do Iguaçu. Não funcionou. Você gritou, esperneou e me chutou, transformando um banho que deveria ser relaxante e produtivo numa atividade exaustiva, onde você saiu cansado de chorar e pronto pra dormir, e eu saí estressada e pronta pra chorar, querendo ligar pra minha terapeuta com uma taça de vinho tinto comprado em Florence na mão.

E nisso, seu cabelo foi crescendo. Despontado. Meio corte pinico, como dizia sua avó Vanda. “Ah, tá pinico mas cresce”, dizia ela cada vez que te via pelo Facetime. Sacanagem. Parei de cortar então.

Até o dia que sua orelha ficou tão coberta que não tive escolha. Te levei. Escolhi um lugar pra crianças, com brinquedos, cadeira em forma de carrinhos, e fomos. Eu, você, a Giulia e uma babá chamada Cassey.

Você sentou no carrinho, e estava tranquilo. Aquela ingenuidade de criança, sabe? Até que você viu a tesoura. Você se mexeu tanto filho, que eu não sabia como você me escondeu por tanto tempo que havia treinado capoeira desde que nasceu. Você fez a cabeleireira suar, sapatear e sambar pra cortar seu cabelo. Ela tentou de um lado, tentou de outro, tentou de cima, colocou tv e pediu pra eu te segurar no meu colo. Tive que te prender, te segurar e espero de coração que você nunca jogue isso na minha cara, e que nem vire claustrofóbico por isso. Porque eu te segurei, filho, mesmo com você gritando como se estivesse apanhando de 3 lobos, 1 elefante e 2 hipopótamos ao mesmo tempo. Afinal de contas, eu não ia te desistir no meio de tudo e te trazer pra casa com um cabelo corte pinico né? Imagina só o que a minha mãe ia falar quando te visse.

A cabeleireira, então, derrotada na guerra, se arrastando e cansada, entregou os pontos. Chamou a gerente. Aí ví que ficou sério, porque afinal de contas, a gerente estava vindo pra terminar de cortar o seu cabelo. Trocaram você de lugar, pela terceira vez. Do carrinho vermelho, pro meu colo, e do meu colo pro carrinho verde. Tinha umas outras 3 crianças no salão. Todas quietas. Os pais mais quietos ainda. Todos me olhavam com um olho de furação, e eu sentia que estava sendo engolida por julgamentos e críticas. Eu virei oficialmente a pior mãe do mundo naquele momento. Que tipo de mãe prende o filho num carrinho verde onde vem uma gerente especialmente designada pra cortar o cabelo de uma criança que não quer cortar o cabelo? Que absurdo. Abuso.

A gerente, confiante do seu talento, se empolgou. O carrinho verde te impedia de mexer muito então ela cortou aqui, cortou ali e numa rapidez de fazer inveja pro Usain Bolt. Ela cortou o dedo. Saiu correndo, deve te xingado a gente – afinal é gerente, é confiante do seu talento, mas é humana. Pegou o band-aid, voltou e cortou, cortou e cortou. Aí quem começou a ficar tensa fui eu “está bom assim”, eu disse “não quero muito curto não”.

E assim acabou. Um alívio quando acabou. Paguei o corte, dei $10 de caixinha – pra elas poderem comprar uma bebida alcoólica depois do expediente – te peguei no colo, te dei rapidamente um balão azul que estava lá como prêmio para as crianças comportadas que deixam cortar os cabelos, e assim saímos confiantes do salão. O balão azul seria nosso ato de rebeldia. E daí que você deu piti, trocou de cadeira 3 vezes e fez a gerente cortar o dedo? O balão azul era pra ser seu, e se alguém viesse com olhar de furação pra cima de mim … ia sentir que apanhou de 3 lobos, 1 elefante e 2 hipopótamos. Tudo ao mesmo tempo.

E pra encerrar o dia, mamãe te levou na sorveteria. Você já não chorava mais, mas o simples fato de colocar suas mãozinhas de 2 anos na nuca e não achar mais o cabelo que estava lá me apertou o coração. Afinal de contas, mãe que é mãe se sente culpada por tudo e recompensa o filho com sorvete azul turquesa cheio de açúcar, artificial e com sabor de algodão doce.

E foi assim que você teve seu primeiro corte de cabelo, e voltou pra casa todo James Dean.

Te amo,

Mamãe

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